Osvaldo Santana Neto

Principal Software Engineer na Luizalabs

Vou começar o projeto com chave de ouro, entrevistando uma das pessoas que eu acompanho a carreira fazem anos. Com vocês, Osvaldo Santana:

Conte um pouco sobre sua posição atual. Qual é o seu título e que tipo de trabalho você faz geralmente?

Atualmente eu estou trabalhando como Principal Engineer do Luizalabs depois de quase 6 anos trabalhando em posições de gestão de tecnologia. Faz poucos dias que retornei para a vida de desenvolvimento de software, mas estou muito feliz.

Que tipo de impacto você sente que mais gera na sua posição atual? E como isso é diferente em relação a sua posição anterior?

Já faz mais de 30 anos que trabalho com desenvolvimento de software e isso me trouxe muita experiência com o uso de tecnologia para resolver problemas de diversos tipos. Como amo desenvolver software me sinto muito mais confortável com o tipo de problemas técnicos relacionados ao mundo do software. Esse conforto e experiência na área permitem que eu consiga ajudar muito mais a equipe a resolver os problemas que aparecem no dia a dia.

Na minha posição anterior, como gestor de tecnologia, eu tinha que ajudar a equipe usando um conjunto de conhecimentos diferentes do conhecimento técnico que eu domino. Apesar de ter estudado e me preparado muito para lidar com tais habilidades, eu não tinha o mesmo nível de experiência que tenho com tecnologia e, por isso, nem sempre eu estava tão confortável com essas atividades.

Como gestor eu tinha que lidar com as expectativas de cada profissional da minha equipe e isso trás uma responsabilidade muito grande para nosso trabalho.

Qual é o percentual de trabalho entre código e liderança que você desempenha hoje? 50/50? Passa mais tempo trabalhando com tecnologia/codando ou mais tempo liderando pessoas?

Faz pouco tempo que retomei minha vida como técnico e por isso ainda estou mais em reuniões do que programando. Mas isso acontece porque é um projeto novo e ainda estamos tentando entender o que precisamos fazer.

Mas acredito que em pouco tempo eu vou ter que baixar a cabeça e começar a produzir alguns softwares junto com a equipe.

Como é um dia normal na sua rotina? Ou como é uma semana normal para você?  Quais são suas rotinas principais?

Está tudo muito novo ainda mas as coisas estão apontando para que eu trabalhe muito tempo ajudando como uma espécie de consultor interno na empresa onde trabalho. A empresa está iniciando um programa muito grande e eu já tenho uma grande experiência com o tipo de projeto que esse programa vai desenvolver. Por conta dessa experiência prévia eu vou atuar como suporte para várias equipes da empresa que vão desenvolver projetos dessa iniciativa. 

Como você mede seu sucesso? Quando somos pessoas desenvolvedoras de software é comum medirmos nosso sucesso pelo número de commits, pull requests, entregas realizadas. Isso mudou de alguma forma em sua posição atual?

Eu nunca me importei com métricas duras. Nem como programador, nem como gestor. E quando me cobram por métricas eu só faço o mínimo necessário para atender às demandas. Eu entendo e sei fazer todos os tipos de mensurações que me pedem, mas pessoalmente acho todas elas desnecessárias ou inúteis.

Mas essas são minhas opiniões pessoais e não tento impor ou promover elas para ninguém. Acho que não tenho o direito de me manifestar contra questões de fé.

Para mim a única métrica que importa é aquela que vem através de feedback dos colegas. Aquele colega que te agradece. Ou ver aquele programador Jr que está fazendo coisas incríveis graças ao meu apoio. Depois de 35 anos na área, a minha maior métrica de sucesso é ter uma rede de pessoas que se ajudam mutuamente para fazerem coisas bacanas.

Você participa das decisões de tecnologia ou arquitetura? Como gerencia essa influência em relação aos demais times? Você toma boa parte das decisões ou guia os times para que eles cheguem às conclusões?

Sim. Participar deste tipo de decisões é parte principal do meu trabalho atual. Mas a forma com que eu faço isso é garantir que as decisões não sejam minhas. Parece estranho? Eu explico.

Tomar decisões nos tipos de projeto que tenho trabalhado atualmente é bem complicado. São projetos gigantes com alto impacto nos negócios das empresas. É necessário uma enorme responsabilidade para tomar essas decisões.

E mais do que responsabilidade isso exige muita humildade da gente. Humildade para entender que as decisões de um time sempre vão ser melhores do que as decisões de uma pessoa.

Quem me ensinou isso foi um amigo e ex-gestor que tive. Antes dele eu costumava ser muito combativo na defesa das minhas ideias e tentava convencer meus pares das decisões que eu tinha tomado. Era difícil e estressante.

Então meu amigo me ensinou uma outra abordagem: a de ouvir. E hoje eu não tomo mais decisões sozinho. Sempre que me deparo com uma situação que exige a tomada de uma decisão eu paro para ouvir o que cada integrante do time tem a dizer sobre aquilo, monto um conjunto de perguntas para a equipe responder e, no processo de responder essas perguntas, a equipe vai refletindo mais profundamente sobre o problema a ser resolvido e construindo uma solução colegiada.

Muitas vezes a solução que eles criam se parece demais com a solução que eu já tinha imaginado. Mas agora ela não é mais 'minha' solução. Ela pertence ao time todo e todos eles estarão muito mais comprometidos com ela.

Também acontece da equipe criar soluções melhores do que as que eu imaginei inicialmente e isso é ótimo porque eu aprendo ainda mais com isso e cresço ainda mais.

Quando a equipe cria uma solução pior do que a que você imaginou inicialmente eu avalio o impacto negativo de seguir com essa solução: se ela for catastrófica eu intervenho e forço a minha solução. Se não for catastrófica eu deixo o time prosseguir até eles esbarrarem com os problemas que a solução deles iria produzir. Essa é uma ótima oportunidade para falar sobre humildade para a equipe.

Que soft-skills você percebe que fazem a diferença na sua posição? E como eles diferem da posição anterior, como dev senior?

Ouvir mais do que falar. Perguntar mais do que sugerir.

Essas duas habilidades são importantes e úteis para todo mundo. Mas para um líder são requisitos obrigatórios.

Você dedica tempo para mentorar as demais pessoas dos times?

Sim. Mas prefiro que as pessoas do time não percebam que estou fazendo isso. A relação explícita mentor-mentorado prejudica mais do que ajuda na comunicação.

Prefiro uma relação de par com meus colegas de trabalho. Mesmo com aqueles que têm menos anos de profissão.

Para chegar a esta posição, você entregou algum projeto especial, ou você sente que foi uma progressão pelo conjunto das suas contribuições?

Acho que não tem tanta relação com projetos. Tem mais relação com jornadas. É claro que entreguei coisas legais ao longo da minha carreira. Mas meu crescimento profissional se deu muito mais por conta das relações que estabeleci com as pessoas com as quais trabalhei nesses projetos do que pelos projetos em si.

Aprendi tudo o que sei com meus colegas de trabalho e (acho que) ajudei muitos outros colegas de trabalho ao longo desses anos. Quanto mais pessoas incríveis você conhece, maiores são as chances de você fazer coisas incríveis.

Que dicas você pode dar para quem está decidindo se continua o caminho de desenvolvimento ou se deve ir para a área de gerenciamento de pessoas? O que levou você a escolher pelo primeiro caminho?

Já faz muito tempo que existe a tal da carreira em Y. Mas, sendo bem direto aqui, aqui no Brasil isso chegou pra valer só recentemente. Não faz muito tempo que, para ganhar um salário bacana, você precisava orientar sua carreira para a área de gestão.

Mas isso mudou. Agora não é mais necessário se tornar um gestor para crescer na carreira.

Apesar disso, com o tempo e a experiência vai se tornar inevitável que você se torne uma figura de liderança dentro dos times por onde passa. E a liderança exige um conjunto novo de soft-skills que precisam ser aprendidos. E por sorte, hoje, é razoavelmente fácil encontrar bons materiais sobre o assunto.

Dito isso, a próxima pergunta que você deve se fazer é? Eu realmente quero me tornar um gestor? Estou disposto a praticamente abandonar meu editor de textos/IDE para adotar uma planilha eletrônica e uns slides? Estou preparado para investir horas do meu dia entrevistando candidatos para uma vaga? Viver uma rotina de one-on-one e feedback com cada um do time? E se você precisar demitir um colega seu?

Se você respondeu sim a todas essas perguntas, o próximo passo é estudar tudo isso e só então aceitar a nova posição.

Lembre-se também que nenhuma decisão é definitiva e nem tão grave quanto parece. Entenda que é só um cargo diferente. Uma nova experiência.

Você lembra de algum conselho ou dica que recebeu quando entrou nesta posição e que foi importante para você?

Vai parecer repetitivo mas é realmente importante: ouça as pessoas. Empatia é muito importante e empatia tem mais a ver com ouvir do que com falar.

Quais fontes você usa para se especializar? Blogs, livros, canais do Youtube.

Sobre soft-skills de liderança a fonte primária é networking. Conversas, mentoria, coaches (sérios), são as melhores fontes de aprendizado. Mas… seja muito crítico ao que essas pessoas dizem! Entenda que tudo o que eles falam funcionou para eles, mas podem não se aplicar para você.

A segunda fonte de informação que uso são os livros. Escrever um livro exige um nível de reflexão e compreensão dos problemas que é bem maior do que o necessário para escrever um blog ou produzir um vídeo pro Youtube.

Onde as pessoas podem te encontrar? Site, Linkedin, Twitter, etc. 

Tenho um blog em https://osantana.me, marco presença no Twitter como @osantana. Mas também estou em diversas outras redes mais esporadicamente: https://about.me/osantana.